Faz 20 anos nesta quinta-feira. Quando o ônibus do Corinthians deixou o Hotel Samoa, na Rua Rocha, e contornou a Praça 14 Bis, o então meia Neto entrou na cabine do motorista Ivo para entregar uma fita cassete com uma de suas canções prediletas na época. A música "Gente Humilde", na voz de Chitãozinho e Xororó, simbolizava a trajetória daquela modesta equipe de 1990. Contestados, todos os jogadores cantaram juntos no trajeto até o Morumbi, para disputar a final contra o São Paulo, naquele domingo de 16 de dezembro. Saíram do estádio do rival com o primeiro título brasileiro da história de um futuro Timão - a obsessão pela conquista nacional já se assemelhava à atual, pela Copa Libertadores da América.
Os próprios jogadores do Corinthians contribuem com o rótulo de "gente humilde". Para celebrar o 20º aniversário da nacionalização corintiana, a Gazeta Esportiva.Net preparou longas entrevistas com três destaques daquela conquista de 1990: Neto, Ronaldo e Tupãzinho. Todos reconheceram que o time montado pelo presidente Vicente Matheus tinha como meta principal não ser rebaixado para a Segunda Divisão. Ninguém pensava em título. E não era sem motivo.
O Corinthians começou o Campeonato Brasileiro de 1990 desacreditado, após fracassar no Campeonato Paulista diante do Bragantino (futuro campeão estadual, sob o comando de Vanderlei Luxemburgo). O entusiasmo da equipe do interior paulista naquele tempo era tamanho que o dirigente Nabi Abi Chedid ousou formalizar uma proposta de US$ 2 milhões para tirar Neto do Parque São Jorge. O camisa 10 só aceitou voltar a defender o Corinthians no Campeonato Brasileiro depois de receber um telefonema de Vicente Matheus, na concentração da equipe, garantindo a sua permanência.
Outros jogadores do Corinthians também corriam risco de sair - não porque interessassem a outros clubes. Decisivo na reta final do Brasileirão, o versátil Wílson Mano estava sem contrato, desvalorizado e disposto a procurar outro time quando a competição começou. Nem o atacante Viola, já famoso por marcar o gol do título paulista de 1988 e promovido definitivamente aos profissionais, escapava das críticas pela má fase corintiana. Pediu para ser negociado, com esta justificativa: "Sei que sou um jogador marcado pela torcida. Principalmente porque o setorista de A Gazeta Esportiva me chama de artilheiro de um gol só".
Acervo/Gazeta Press
Com tantos problemas (além de não contar com alguns jogadores, machucados ou fora de forma) era previsível que a estreia do Corinthians no Brasileiro fosse das piores: derrota por 3 a 0 para o Grêmio, em Porto Alegre. "Dá até dó do Corinthians", assumiu o volante Márcio - que adotaria o sobrenome Bittencourt para ser treinador do time em 2005 - ainda no gramado do Estádio Olímpico. O técnico Zé Maria já passava a ter o seu emprego ameaçado. Havia pouco tempo que ele substituíra no cargo o ídolo corintiano Basílio, demitido por divergências com Vicente Matheus. A chegada de reforços também não amenizou a turbulência. Embora o volante Ezequiel, que até hoje defende o time de masters do Corinthians, demonstrasse tranquilidade em sua apresentação, após ser cedido pelo Ituano por empréstimo: "Estou muito feliz e satisfeito. Sinto a emoção de uma criança que ganha o seu primeiro brinquedo. A torcida corintiana é um monstro!".
Em pé: Giba, Jacenir, Marcelo, Guinei, Márcio e Ronaldo. Agachados: Fabinho, Wílson Mano, Tupãzinho, Neto e Mauro
A Fiel provou a sua monstruosidade no jogo seguinte. A derrota por 1 a 0 para o Cruzeiro, em casa, não foi perdoada pelos torcedores. Membros da organizada Gaviões da Fiel invadiram o gramado para agredir Zé Maria. O presidente do Corinthians também foi alvo de protesto. "Fora, Matheus! O Corinthians não é teu!", berraram os manifestantes. Em 28 de agosto, A Gazeta Esportiva estampou a consequência final do tropeço corintiano em sua capa: "Zé Maria beija a lona. O ex-pugilista e treinador do Timão não resistiu às pressões e foi a nocaute. Ontem, Zé Maria entregou o cargo que ocupou por quase três meses. O Corinthians pensa em Nelsinho Baptista".
Nelsinho foi anunciado como novo técnico no mesmo dia em que o jornal entrou em circulação. Em sua chegada ao Corinthians, o treinador vice-campeão paulista pelo Novorizontino (e que, ironicamente, participaria da maior tragédia da história corintiana em 2007: o rebaixamento para a Série B) passou a alimentar um sonho que parecia absurdo para a época: ser campeão brasileiro. O otimismo de Nelsinho talvez fosse característico de um profissional jovem, em início de carreira. "Tenho uma lembrança boa desse tempo, de um trabalho importante e diferente que fizemos. O Corinthians foi o primeiro clube grande que me deu oportunidade", recordou o treinador, duas décadas depois da conquista histórica.
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O ânimo renovado não foi o único benefício que Nelsinho trouxe para o Corinthians. Ele também exigiu melhores condições de trabalho. Dias antes, Neto reclamava publicamente que o pão-duro Vicente Matheus decidira extinguir os treinamentos em dois períodos para economizar com o almoço dos atletas: "Acho que o problema é esse. Se dependesse de mim, o Corinthians treinaria pelo menos duas vezes por semana em dois períodos. Eu ainda faço um trabalho à parte, mas nem todo mundo tem essa condição. O clube não quer pagar almoço!". Com o novo técnico, o já rechonchudo camisa 10 e seus companheiros foram bem alimentados. Também viajaram para concentrações no interior do Estado. E voltaram a ganhar.
Com a chegada de Nelsinho, Corinthians voltou a ganhar almoço da diretoria
Após um empate por 0 a 0 com o Vitória (que configurou o terceiro jogo consecutivo do Corinthians sem gols e sem vencer no Brasileirão), a equipe ascendeu diante do maior rival: 2 a 1 sobre o Palmeiras, com gols de Neto e Wílson Mano. Era o que restava para o discurso de Nelsinho Baptista contagiar o elenco corintiano. Sofrendo poucos gols, contando com a segurança de Ronaldo na defesa e vencendo por placares mínimos, o time engrenou no campeonato. Alcançou uma vaga nas quartas de final mesmo depois de ser derrotado por 3 a 0, em casa, pelo Internacional. "Fomos com a confiança muito elevada e tropeçamos contra o Inter, o que nos valeu uma classificação sofrida", lembrou Nelsinho.
Para resgatar a concentração do Corinthians, o treinador levou o grupo para um período de reclusão antes da fase de mata-mata. Deu certo. O primeiro adversário era o Atlético-MG, que havia feito boa campanha na primeira etapa e tinha vantagem de decidir a classificação em Belo Horizonte. A situação dos mineiros melhorou ainda mais porque Gérson abriu o placar no jogo de ida, logo aos 15 minutos. No segundo tempo, Neto fez a diferença. Empatou a partida com um gol raro em sua carreira, de cabeça. E virou para 2 a 1 com um chute firme, depois de cruzamento de Paulo Sérgio. Para celebrar, correu sob a chuva e encenou pela primeira vez a comemoração que se tornaria uma marca registrada: deslizou no gramado, de joelhos, erguendo o punho direito para o público. O Corinthians empatou por 0 a 0 no Mineirão e avançou às semifinais.
| Montagem/GazetaPress |
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| Com este gol chorado, com participação de Fabinho, Tupãzinho entrou para a história corintiana |
Contra o Bahia, o roteiro se repetiu. O time visitante marcou o primeiro gol, com o ex-corintiano Wagner Basílio, que fez gesto de silêncio para a Fiel. Neto apareceu outra vez para salvar o Corinthians. Ainda no primeiro tempo, ele bateu o escanteio em que Paulo Rodrigues jogou a bola contra as próprias redes. Na segunda etapa, o meia usou de sua especialidade, a cobrança de falta, para sacramentar mais uma virada por 2 a 1. Com um 0 a 0 em Salvador, enfrentando bastante hostilidade por parte da torcida local, os agora menos contestados corintianos foram à decisão contra o São Paulo. Um feito improvável para aquele time.
Uma vez finalistas, os jogadores do Corinthians não tinham dúvidas de que seriam campeões. Era unanimidade entre eles de que o São Paulo possuía mais qualidade, mas não força de vontade suficiente para ficar com o título. "Vamos para dentro deles, para engolir. Eles não têm condições de tirar esse troféu de vocês!", incentivava Nelsinho Baptista, sempre que palestrava para o grupo. Foi com essa confiança que os corintianos entraram em campo para enfrentar o São Paulo no dia 13 de dezembro de 1990. Já aos quatro minutos, Neto cobrou uma falta da intermediária, e Wílson Mano deu uma joelhada na bola para marcar o gol da vitória por 1 a 0.
Com aquele resultado, Nelsinho Baptista e os seus atletas não estavam mais sozinhos na crença no título brasileiro. Há exatos 20 anos, o criticado Corinthians rumava ao Morumbi com a certeza de que deixara de ser composto apenas por "gente humilde", conforme pregava a música que embalou a delegação no percurso até o estádio. Aqueles jogadores, ainda atacados pelos mais desconfiados, ganhavam status de ídolos. Estavam prestes a nacionalizar um clube que só tinha títulos regionais no currículo até o momento.
Acervo/Gazeta Press
Na véspera da partida, 3.000 torcedores fizeram jus à empolgação e seguiram para a Fazendinha para apoiar o Corinthians. Um famoso alfaiate também foi ao Parque São Jorge para tirar as medidas do técnico Nelsinho Baptista e presenteá-lo com um terno. A euforia tomava conta da cidade de São Paulo. Presente em uma feira na Vila Maria, a prefeita Luiza Erundina acreditava naquele time que costumava vencer pelo placar mínimo: "Vai ser 1 a 0 para o Corinthians, com gol do Neto". Com passagem pelo São Paulo, o centroavante Casagrande estava no Áscoli, da Itália, e enviava mensagens para o Brasil com o mesmo palpite para o marcador.
"Gente humilde" fez festa antes e após a final
Na concentração no Hotel Samoa, contudo, os atletas do Corinthians tentavam agir com naturalidade. Em 16 de dezembro de 1990, Nelsinho Baptista proferiu uma palestra para o grupo às 11 horas. O almoço foi servido ao meio-dia. Naquele horário, uma multidão de torcedores já se aglomerava em um ponto de ônibus e, aos gritos, atrapalhava a realização de um vestibular da Fatec. O pedreiro Carlos Alberto Conceição, por sua vez, passeava tranquilamente com o uniforme corintiano em meio a são-paulinos na Avenida Nove de Julho. "O pessoal até tirou fotos comigo. Vim encontrar a minha namorada e não sabia que estava esse alvoroço todo, mas não houve nenhum problema", sorria. No Morumbi, cambistas vendiam ingressos por Cr$ 2,5 mil - nas bilheterias, custavam Cr$ 800.
A fase do Corinthians havia mudado de tal maneira que Paulo Roberto Falcão, técnico da seleção brasileira na época, estava no estádio especialmente para observar Neto e Tupãzinho. E o São Paulo ainda criou polêmica na esperança de encurtar o caminho para o título brasileiro na data de sua refundação: mesmo como visitante no Morumbi, não cedeu o vestiário principal para o rival e orientou o preparador físico Moraci Sant'anna a correr em direção ao melhor banco de reservas antes da entrada das equipes em campo.
Nada adiantou. Depois da execução do Hino Nacional (quando apenas Wílson Mano e Fabinho levaram a mão ao peito, em sinal de respeito), o Corinthians não se intimidou e jogou com a paciência de um mandante. O time tinha a vantagem do empate, porém foi campeão com vitória - como previam Erundina e Casagrande. Aos oito minutos do segundo tempo, Neto lançou Tupãzinho, que colocou a bola entre as pernas de Antônio Carlos, passou para Fabinho e, no rebote, entrou definitivamente para a história ao concluir com um carrinho para o gol. O Talismã da Fiel acelerou em direção à torcida, beijou o escudo e abriu caminho para o triunfo. Ainda houve tempo para Bernardo agredir Márcio e ser expulso. O volante teve o prazer de ficar com a sua camisa manchada, vermelha, e de poder dizer que literalmente deu o seu sangue pelo título. Wílson Mano também recebeu cartão vermelho. E iniciou a festa mais cedo: vestiu uma faixa de campeão e deu voltas olímpicas sozinho pelo Morumbi, à espera do apito final.
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O jogo acabou. O Corinthians era campeão brasileiro pela primeira vez. "Falaram que a gente era um timinho. E realmente somos. Só que somos um timinho que tem amor à camisa e raça, além de respeito ao torcedor", esbravejou Neto, enquanto seus companheiros corriam enlouquecidos pelo Morumbi. No ônibus, a música puxada pelo camisa 10 no retorno para a concentração já não era mais de Chitãozinho e Xororó. Os jogadores preferiram cantar o hino do clube e um verso em homenagem a alguém que antes fora tão criticado quanto eles: "Fica, Matheus! O Corinthians é teu!". Alguns também estavam preocupados com o excesso de força de policiais militares contra os fãs que se aglomeravam na lataria do veículo conduzido por Ivo. Afinal, lá fora também havia muita "gente humilde".
Neto carregou o time também na volta olímpica
fonte: gazeta.net






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